terça-feira, 22 de novembro de 2011

A gente nunca sabe o que


"Me queimo num fogo louco de paixão, anjo abatido"
"Maldito é a mãe", vomitou para a câmera Jards Macalé, exímio músico e letrista incrível, num documentário apresentado por Nelson Mota sobre os malditos da música brasileira. Os malditos estão em todas as artes, cantando por toda a parte, amparados por engenho e arte.  
Rotular é com a imprensa e a academia gosta. Usa e abusa. Há necessidade de se rotular tudo, para compreender melhor a origem da criação e contextualizá-la, ou simplesmente porque facilita o que não é entendido. Itamar Assumpção, Jorge Mautner, Tom Zé, Arrigo Barnabé e Luiz Melodia, entre outros, são citados no breve doc de Mota. São artistas de inegável qualidade, mas que nunca gozaram de um reconhecimento significativo e também não levantaram um dedinho sequer para facilitar nada. Quem estiver preparado que aprecie o biscoito fino: “diz-me com quem tu andas que eu te direi quem és”. O mundo é assim: benditos prum lado, malditos pro outro... Entre eles, outros universos rotuláveis. E as injustiças estão por toda a parte. Mas há a certeza de que muitos malditos, preferem, ou teriam preferido, o tal rótulo.
 Entre as características dos poetas malditos está a abominação às regras e normas sociais, desobedientes de carteirinha e recusam ideologias instituídas. Talvez, se assim não o fossem, sua criação literária não vingaria. Daí, que para um maldito publicar um livro, não é coisa fácil, geralmente. E essa arte, que parte de um comportamento subversivo, nem sempre torna-se conhecida por muitos.


 

"No ziper a surpresa que já tarda,
 calcinha imitando pele de leoparda"

O termo maldito surgiu entre os franceses no século XIX. Foi cunhado por Alfred de Vigny, numa peça dramática, onde se referia aos poetas como uma raça para sempre maldita entre os poderosos da terra. O poeta  francês François Villon, que viveu no século XV, foi o primeiro a receber esse rótulo na história da literatura. Ou seja: Villon nem chegou a saber que era maldito.


O primeiro maldito

Com base em tudo que já foi dito aqui, podemos sugerir que aconteceu um quase milagre ontem em Cuiabá. Dois livros de poesia, ambos com o selo da Carlini e Caniato Editorial. Um de Antônio Carlos Lima, Toninho ou Toím, poeta, inspirado, mas que tem lá algo de maldito. Se ele disser para o Tyrannus “Maldito é a mãe”, aceitaremos. Gostamos dele, de seus versos e adquirimos “A! Pô! Cá! Ali! Psiu!”.  
  


"Endurecer-se é mole. Duro é manter só ternura
quando a coisa fica dura"


O outro livro, “Sábado – ou cantos para um dia só”, traz os poemas de Marta Cocco, versejadora de fibra que honra a boa tradição literária cuiabana. Marta, que tem uma formação acadêmica, e é estudiosa, escreve como conhecedora das liberdades que são necessárias para que a poesia voe alto.



"O mundo anda e andamos todos doentes deste
 jeito de viver"

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